Estude 10 anos ou mais. Jogue 15 anos ou mais. Nenhuma experiência, seja por meio do estudo ou por meio da prática, dará a novos treinadores o discernimento necessário para a prática da profissão de treinador. Somente a prática como treinador, a frente da equipe, em diversas situações diferentes pode ser capaz de gerar aprendizado específico, porque quando se esta lá dentro é que aprendemos que 2+2 nem sempre é 4, e que as coisas no futebol nao são exatas.
Quando se está a frente de uma equipe, muitas responsabilidades estão girando ao redor do treinador. Administrar uma equipe profissional de futsal ou futebol de campo nao é nada fácil.
Muitas vezes é preciso brigar, outras tantas é preciso não brigar. Definir sistemas táticos, manobras ofensivas e defensivas, transições ofensivas e defensivas, enfim...tudo isso parece ser fácil quando comparado à administração do grupo. Saber lidar com cada pessoa envolvida no processo, seja auxiliar, treinador de goleiros, médico, fisioterapeuta, diretor, jogador, goleiro, enfim...é uma das maiores e mais importantes atribuições do treinador, para manter a harmonia no grupo.
Vou citar um exemplo que acabei de vivenciar na ASIAN CHAMPIONSHIP OF CLUBS, realizada no IRAN, em que ficamos em segundo lugar.
Nossa comissão técnica foi formada pela diretoria do Al-Sadd (árabes/muculmanos) e é composta de 5 diferentes nacionalidades: eu sou o treinador (brasileiro), Redouane é meu assistente (marroquino/Belga), Mohsen é o treinador de goleiros (Iraniano), Abdul Motaleb é o fisioterapueta (Sírio) Ashraf é o roupeiro (Indiano) e os diretores são árabes/muculmanos.
Cada um vem com uma cultura diferente, uma concepção de esporte de rendimento diferente. Uma forma de trabalhar distinta. E o treinador necessita dar à comissão uma uniformidade em termos de treinamento/filosofia de trabalho. Além de administrar a forma de jogar da equipe, administrar o grupo se torna mais importante.
Após dois anos a frente da equipe do Al-sadd futsal, percebi que nesse momento contornar os inúmeros problemas que acontecem diariamente entre comissão/jogadores e comissão/comissão seria o maior desafio pra harmonia no grupo e consequentemente a busca de bons resultados.
Em determinado momento do período preparatório, divergi com meu assistente sobre a forma de jogar e marcar. Propus uma reunião com os jogadores em que definiríamos em consenso a melhor forma de jogar. Foram explicitados todos os recursos de marcação(individual, zona quadrante, mix) assim como os recursos de ataque. Após exposição dos problemas e vantagens de cada variante, definimos um padrão para a equipe, construído por todos.
Foi extremamente produtivo a reunião pois, os jogadores participaram ativamente e se tornaram responsáveis pela produção dentro da quadra e meu assistente que antes sempre queria "bater de frente" com minhas posições táticas, passou a jogar do meu lado e me ajudar bastante, se comportando legitimamente como meu assistente.
Por diversas vezes tivemos problemas em relação aos conteúdos do treinamento, fato gerado no meu entendimento pela diferente concepção de trabalho, e a partir desse momento acredito que entramos em harmonia e comecamos a fazer um trabalho em grupo. Logo após isso ficou definido entre nós que ele faria as observações dos nossos adversários e faria uma exposição aos jogadores sobre a forma de jogar das outras equipes. Trabalho muito bem feito por ele. Após a observação dos nossos adversários, eu decidia a melhor forma de jogar e de marcar.
Programação diária, alimentação, descanso, passeios(?) (normal no mundo árabe, onde quer que voce vá com eles, eles vao querer ir a shoppings ou fazer turismo pela cidade) treinos, recuperação pós-jogo, etc etc etc... Isso se tornou extremamente fácil e objetivo.
Mas manter a harmonia do grupo, direcionado para o objetivo em comum, isso sim foi uma tarefa bem difícil de realizar. Mas acredito ter sido minha maior qualidade nesse trabalho maravilhoso que realizamos a frente do Al-sadd ficando em segundo lugar no torneio continental, perdendo a final para a equipe do Foolad Mahan Sepahan do Iran (que é formada pela base da seleção do Iran), e no meu entendimento na parte física pois nao tínhamos trocas suficientes para descansar a equipe principal.
Embora a equipe tenha sido muito elogiada pela forma de jogar, com variações de ataque e defesa, pelo toque refinado de bola, pela maior quantidade de gols feitos na competição, acredito que minha maior virtude nesse momento foi saber administrar os problemas advindos de uma comissão multinacional.
Muita humildade sempre, mas reconhecendo seus valores.
Até a próxima.
Parabens pelo trabalho realizado!!!
ResponderExcluirTenho muito orgulho de ser seu AMIGO! Parabéns, você está no caminho certo.
ResponderExcluirFabiano, o comentário final resume tudo. Humildade para ouvir outras opiniões, sem abrir mão da liderança, é a chave de tudo. Parabéns pelo excelente trabalho e pelo extraordinário desenvolvimento do futsal do Qatar, e, em particular, do Al Sadd.
ResponderExcluirTeu pai que te ama muito.
Parabéns pelo excelente trabalho! Na época da Faculdade, tive um professor de sociologia do Esporte que me ensinou algo muito importante......:"o melhor treinador é o bom administrador de vaidades. Pode ter a melhor tática, o melhor ocnhecimento de jogo....mas se não for bom administrador de vaidades.....não chega!" .......Trabalhar em grupo é sempre complicado......mas você sabe como fazer! Parabéns!! Muito sucesso!!
ResponderExcluirLuis Barros
Maurição
ResponderExcluirParabéns primeiro porque onde muitos nem se quer escutaria o auxiliar você viu que a produção de uma equipe estava relacionada diretamente com o fato de todos estarem ligados mesmo que não culturamente mais pela linguagem futebolística.