Esses dias estive lembrando muitas passagens da minha vida, e percebi como algumas coisas nos marcam para sempre. São sempre coisas simples, humildes, gratuitas, destituídas de qualquer interesse de retorno. Acho que essas características fazem delas mais importantes e mais duradouras que outras.
Fui reconstituíndo todo o processo de aprendizado de futebol/futsal que tive durante a infância e adolescência, e posteriormente como adulto. Ao mesmo tempo, percebi que esse processo de aprendizado estava intimamente ligado às minhas experiências de vida, seja dentro da família, seja com amigos ou algumas pessoas que entram na nossa vida por pouco tempo mas que deixam uma marca muito grande.
Ao resgatar essas memórias da minha vida, percebi que todas as experiências marcantes que tive estão diretamente relacionadas às minhas práticas como treinador de futsal atualmente.
O exemplo que mais me chamou atenção, lembrando agora no jantar do dia do meu aniversário, foi 0 da Onélia, empregada que trabalhava na casa da minha avó Luzia, lugar onde passei boa parte da minha infância espetacular.
Foi lá também onde meu pai, Sérgio, e meus tios Adilson e Celso também aprenderam e inventaram um futsal de época que tanto marcou a história do futsal brasileiro. Naquele quintal nasceu uma das maiores equipes de futsal da história, ganhando TODOS os campeonatos que disputaram, sendo no Rio de Janeiro pelo A.A. Vila Isabel ou em São Paulo, posteriormente pelo Palmeiras.
Mas voltando à Onélia, ela será minha fonte de inspiração para hoje. Não sei bem como a Onélia foi parar na casa de minha avó, mas ela passou a se tornar parte da nossa família. Essa homenagem devo a ela por todos os serviços prestados a nossa família honrosamente e com muito amor.
Onélia fazia comidas deliciosas e muito simples. Seja o feijãozinho com farofa torradinha, pastel de carne moída com ovo cozido, bolos diversos, ou o café da tarde fresquinho, tudo era muito gostoso e deixa na boca uma saudade que bate no coração. Duvido que algum de nós da família Ribeiro vai esquecer desses momentos.
Mas o "segredo da Onélia" vai muito além do sabor das comidas. Sempre que ia fazer algum prato ela chamava o Pucune (meu apelido dado por ela, e cada um dos 11 primos tinha um apelido esquisito) para acompanhá-la no preparo. Desde a carne que era moída na prateleira do quintal, assim como a farinha para a farofa que era feita de pão duro e ficava deliciosa, tudo era feito por ela com muito amor e dedicação. As vezes ela deixava eu tentar um pouquinho, depois de tanta insistência, passar a carne no moedor. Esses momentos de preparo da comida, com todo cuidado, jamais saíram da minha memória. Esse foi um dos maiores aprendizados que tive com ela.
No café da tarde, depois da tradicional soneca, ela não deixava faltar um cordel nordestino com rimas engraçadissimas. Nos divertia com sua simplicidade e originalidade, contando histórias da época em que vivia no nordeste ainda, lado a lado com Lampião e sua quadrilha. lá ela dizia ter aprendido a viver pro bem. Era realmente uma figura folclórica que deixou muitos ensinamentos e alegrias.
Estive a me lembrar da Onélia justamente por viver e pensar meu ofício de treinador 24 horas por dia. É impossível não associar os seus ensinamentos ao processo de treino em futsal. O "segredo da Onélia" está em não se preocupar com o resultado final, mas sim com o processo de preparo. Se o processo de preparo for bem cuidado, com amor, dedicação, seriedade, disciplina, o resultado final certamente será "delicioso". "Educar é amar, educar é ter paciência..." (Paulo Freire)
Assim como na vida, no futsal é preciso muito cuidado com o processo, que é o treino. E os treinamentos são a parte mais importante do processo de aquisição do alto rendimento. Parece simples e óbvio falar nisso, mas cada vez mais os envolvidos dão menos importância à evolução diária do treino em função de resultados nas partidas. As partidas passam a ser o elemento fundamental da evolução, o que pro meu entendimento é muito errado.
Se o treinamento tiver a devida importância, projetando e colhendo resultados diários de rendimento, as partidas serão menos desgastosas e menos difíceis. O treino deve ser cada vez mais próximo da realidade de uma partida, em todos os seus componentes (físico/técnico/táctico/psicológico).
A estruturação do processo de treino tem que estar associada a uma didática específica à linguagem do futsal e do jogo. O jogar que se pretende tem que ser treinado todos os dias. Tem que moer a carne a cada treino. Só valorizando o processo é que se chega a um bom resultado final. Afinal, as coisas mais deliciosas da vida são feitas com muito esforço e dedicação. O sabor da conquista está na vivência do preparo.
Onélia nos ensinou muitas coisas nas sutilezas do dia a dia. "Aprender a aprender" é uma tarefa obrigatória no cotidiano.
Ainda não aprendi a lidar e tolerar o malcaratismo, a desonestidade e, principalmente a injustiça. Isso jamais vou ter interesse de aprender, pois nunca vou ser assim. Esses ensinamentos deixo pra quem nasceu e vive pro mal. Minha honestidade e ingenuidade perante a malícia serão sempre meu cartão de visitas.
Até breve.
Muito bom o texto fabiano . A Onélia, como toda nordestina , so podia ser gente boa e forte . E sobre o processo de treino , compartilho da mesma filosofia que vc . Inclusive , Bernardinho fala disso no livro "transformando suor em ouro" dizendo que " a vontade de se preparar tem que ser maior que a vontade de ganhar" e Mourinho tb aplica essa ideia de treinar o mais parecido possivel com o jogo que se pretende dotar o time . Inclusive na periodizaçao dos treinos . Essa semana Guardiola falou que nao prepara seu time para estar bem daqui um mes ou em determinada epoca do ano , senao que prepara o time para estar 100% no proximo jogo e cada jogo .
ResponderExcluirgrande abraço
marcelinho
Excelente artigo, Fabiano!
ResponderExcluirGlauco
E viva a Onélia, meu amigo!
ResponderExcluirPrecisamos de muitas delas na nossa vida e principalmente no meio do futebol/futsal, pois onde o amor pelo ofício tem ficado em último plano se é que ainda existe!
Ao ler seu artigo, me relembrei de diversas passagens da minha vida e carreira, muitas das quais vc conhece bem, pelas nossas conversas e o quanto a ausência de amor faz falta ao nosso meio e por visar apenas o produto final, leia-se DINHEIRO, vejos a cada dia mais e mais absurdos e o mais gostoso da história, que é o processo, fica deixado de lado.....bom isso é papo pra muito tempo...rsrsr e só queria elogiar o artigo e dizer que vou tomar emprestada sua idéia deste tipo de post e irei por no meu blog também.
Grande abraço
Fabiano querido, chorei muito ao ler seu relato lindooooo e sua homenagem a Onélia fazendo um paralelo com sua vida profissional....Parabéns, eu conheci a Onélia, e tinha por ela grande carinho. Sempre que ia na casa da vó Luzia vinha ela com aquele sorriso único e nos deixando a vontade, oferecendo um cafezinho. Ao telefone também nos atendia com uma saudação amável. Onde ela estiver se sentiu feliz com seu depoimento e nós seus amigos, felizes, por sabermos que nem tudo está perdido, pois ainda existem jovens que direcionam suas vidas para "o bem" e que pensam como você. Grande beijo.Tia Sonia
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