sábado, março 05, 2011

CONTORNANDO OS CONFLITOS NUMA EQUIPE DE FUTSAL/FUTEBOL

CONTORNANDO OS CONFLITOS NUMA EQUIPE DE FUTSAL/FUTEBOL

Esse foi um artigo que publiquei, junto com meu orientador Jefferson Retondar, na Revista Ação e movimento, em 2005.
Tendo o imaginário social como caminho principal, essa é uma pesquisa que trata da significação do conflito dentro de uma equipe de futebol/futsal e os apontamentos necessários à prática do treinador à frente da equipe.



Frequentemente tomamos conhecimento, através dos noticiáros, de desentendimentos ocorridos entre técnicos e jogadores, ou mesmo entre os próprios jogadores. Tal situação, além de gerar conflitos diversos que tendem a inviabilizar a interação entre os profissionais em seu ambiente de trabalho, pode impedir o rendimento máximo exigido no futebol/futsal.

As diferenças individuais existentes entre os componentes da equipe podem concorrer decididamente para que conflitos aconteçam. Nesse contexto, o técnico aparece como elemento integrador da equipe, pois representa a figura do líder fora de campo. Mas, para exercer tal liderança, faz-se necessário que o técnico possua sensibilidade e conhecimento em relação aos integrantes da equipe, para dessa forma poder administrar de forma correta o choque de vaidades e interesses contrários. Nesse sentido, o objetivo do presente estudo é, caminhando na trilha do imaginário social, identificar o modo como os treinadores de futebol se auto-representam no ambiente do clube, considerando a tensão existente entre interesses individuais e coletivos vigentes entre os atletas e o papel do treinador no interior desta tensão.

Para tal, realizamos uma revisão de literatura sobre imaginário social, procurando relacioná-lo ao esporte e especificamente ao futebol/futsal. Em seguida fizemos uma pesquisa de campo de caráter etnográfico, onde foi utilizado como instrumento de coleta de dados entrevistas semi estruturadas, realizadas com três treinadores de futebol de grandes equipes do Rio de Janeiro. As entrevistas foram analisadas por meio da Análise do Discurso, na perspectiva de ORLANDI buscando-se compreender o modo como são produzidos os discursos, isto é, os sentidos que se apresentam ditos nas falas dos informantes ou mesmo os sentidos que não foram ditos, ou seja, estiveram silenciados, mas que mesmo assim continuam significando. Isso nos levou ao mapeamento do universo de sentidos imaginariamente construídos.

Na equipe de futebol/futsal, cada membro possui uma criação diferente, uma cultura diferente, uma educação diferente, pois cada um vem de um lugar distinto. Isso contribui para que conflitos aconteçam dentro da equipe. Mas, embora o ambiente seja favorável para desentendimentos, há algo que une esse grupo e que está presente dentro de cada um de seus membros. E é esse "algo", essa "atmosfera" que podemos localizar através da noção de imaginário. Como nos mostra B. Baczko[2], "o imaginário social como expressão dos anseios de um grupo, de uma coletividade, pode se tornar uma das respostas possíveis aos conflitos, às divisões e violências reais ou potenciais que existem dentro de toda sociedade".

Portanto, compreendendo algumas pistas que o levem à produção imaginária do grupo, o treinador de futebol terá em suas mãos um importante instrumento para mobilizar o grupo em busca de um objetivo comum, minimizando os conflitos. Para que o treinador consiga exercer esse papel tão importante, é necessário que ele esteja inserido dentro dessa produção imaginária, que, como afirma Michel Maffesolli [3]em entrevista a revista FAMECOS, é sempre coletiva; pois "quando se vai analisar o imaginário de uma pessoa, este corresponderá ao imaginário do grupo no qual essa pessoa está inserida. É como se fosse algo que ultrapassasse o indivíduo, contaminando o coletivo ou parte dele. E como estabelece vínculo, unindo em uma mesma atmosfera, nao pode ser individual".

PIERRE ANSART [2], conceitua o imaginário social como "conjunto de sistemas de representações através dos quais as sociedades se autodesignam, fixam sombolicamente suas normas e seus valores". Esse conceito nos dá a idéia de que a sociedade cria coordenadamente um conjunto de representações através dos quais ela se reproduz, designando aos grupos aos quais pertencem os individuos, as identidades e os papéis a serem por eles desempenhados.

MAFFESOLLI [3] nos mostra que "o imaginário, caso se queira de fato uma definição, presente em As Estruturas Antropológias do Imaginário, de GILBERT DURAND, é a relação entre as intimações objetivas e a subjetividade. As intimações objetivas são os limites que sociedades impõem a cada ser. Relação, portanto, entre as coerções sociais e a subjetividade. Nisso entre, ao mesmo tempo, algo sólido, a vida com suas diversas modulações, e alguma coisa que ultrapassa essa solidez. Há sempre um vaivém entre as intimações objetivas e a subjetividade. Uma abre brechas para a outra".

No entanto, o próprio MAFFESOLLI, nos convence que qualquer qualquer tipo de conceito fechado e imaginário se torna pobre pro real entendimento de seu significado. Através da comparação de imaginário com cultura e ideologia, els nos descreve mais claramente o imaginário social.

Ele diz que cultura " é mais ampla que o imaginárioe que ela contém partes dele, mas nao se reduz a ele. Da mesma forma que o imaginário nao se reduz à cultura. A cultura seria fácil de descrever, diferentemente do imaginário, que possui algo de imponderável. A cultura poderia ser identificada precisamente através de grandes obras, teatro, literatura, música, costumes, modo de vestir-se. Enquanto o imaginário permanece em uma dimensão ambiental, naquilo que Walter Benjamim chama de aura. Não vemos a aura, mas podemos senti-la. O imaginário seria essa aura, uma atmosfera. Algo que envolve e ultrapassa a obra".

Ao se refeir à ideologia, MAFFESOLLI explica que "a ideologia guarda sempre um viés bastante racional". Existe sempre a tentavia de argumentação fundamentada para se explicar algo. A ideologia sempre nos leva a um descobrimento, a um desvendamento. Diferentemente disso, o imaginário também possui algo de racional, mas possui também "outros parâmetros, como o onírico, o afetivo, o não-racional, o irracional, os sonhos. Enfim, as construções mentais potencializadoras das chamadas práticas". De certa forma, o imaginário seria também a aura da ideologia, pois além do componente racional ele possui uma sensibilidade, o afetivo.

Na tentativa de compreender sua existência, o homem descobre-se como um ser simbólico capaz de  produzir imagens, símbolos, associações, assim como elaborar pontes de passagem de um oposto ao outro, como o sagrado e o profano.

Portanto, temos o símbolo como um importante elemento constitutivo do imaginário social. Os símbolos tocam o fundo do inconsciente, preenchendo a intimidade do ser humano e recriando a subjetividade. Através dos símbolos podemos formar uma produção imaginária intencional a quaisquer objetivos, uma vez tendo acesso à intimidade do ser humano.

Um dos objetos que assume valor simbólico na sociedade contemporânea é o esporte, que é tratado como um fenômeno social, ocupando grande parte do interesse das pessoas e, na mídia, maior espaço do que é dedicado à política e à economia.

NILDA TEVES e VERA LUCIA COSTA colocam que, na pós modernidade, "consumimos não mais a prática de um esporte, mas uma linguagem, a idéia de um objeto: o esporte. Uma idéia cheia de signos, códigos, mensagens e representações".

Portanto, o esporte na pós modernidade, apresenta-se como um produto espetacularizado, carregado de símbolos e imagens fantásticas, com gestos desportivos e uma elegância ímpar. Com isso, podemos perceber a exaltação da cultura da estética e da performance do corpo como características predominantes do esporte atual.

Após a transcrição e análise da entrevistas percebemos que alguns dados se apresentaram de maneira marcante nos discursos dos informantes. São eles: TREINADOR, TÉCNICO, JOGADOR.

Esses dados, por serem recorrentes nos discursos, podem ser chamados de marcas linguísticas. Na perspectiva da Análise do Discurso, são contempladas como pistas reveladoras, peças-chave para a busca da resolução do problema. Elas serão aqui tratadas de duas maneiras: através da descrição e da análise.

Considerações finais

No aprofundamento dos sentidos encontrados, a marca linguística TREINADOR apareceu com aquela pessoa que está dentro do campo com os jogadores, dando treino para a equipe. A pessoa que aponta os erros e acertos e que cobra o rendimento máximo dentro de campo. Aquele que dá bronca em um posicionamento errado, mas que beija a testa ao fazer um gol ou a coisa certa estabelecida. Ou seja, a pessoa que tem maior contato com os jogadores, convivendo com seus problemas e dificuldades dentro do campo/quadra.

Já a marca linguística TÉCNICO apareceu no contexto de uma pessoa que entende muito de futebol, dos aspectos táticos do jogo, como se fosse um estrategista. Aquele que possui um conhecimento acima da média e que sabe suas capacidades. Porém, isso o torna um tanto quanto distante dos jogadores, como se fosse um especialista que esta ali para dar instruções para alguém traduzir para os jogadores, para tornar prático esse conhecimento. Nesse momento ele se apresenta como uma pessoas que não parece estar dentro de campo junto da equipe e compartilhando suas conquistas e derrotas.

No entanto, sabemos que o treinador e o técnico no futebol são a mesma pessoa, e cabe a nós  fundirmos suas características. Ao executarmos essa tarefa, vemos que os treinadores se auto-representam na figura do "PAI".

O pai, como mostrado por CHEVALIER [6], é o "símbolo da geração, da posse, da dominação, do valor. Nesse sentido, ele é, nos termos da psicanálise, figura inibidora, castradora. Ele é uma representação de toda forma de autoridade: chefe, patrão, professor, protetor, Deus. O papel paternal é concebido como desencorajador dos esforços de emancipação, exercendo uma influência que priva, limita, esteriliza, mantém na dependência".

Ao analisarmos a representação paterna do treinador, fica evidenciado que a relação com os jogadores nesse nivel fica bastante perigosa. Perigosa porque, ao se representar como pai, o treinador evoca nos atletas o sentimento de querer ser igual. E, como mostram CHEVALIER E GHEERBRANT, esse progresso de vir a ter o mesmo valor de pai passa pela supressão do pai outro (no caso, o técnico), para ao pai eu mesmo (o jogador, com os mesmo poderes do treinador).

Analisando a significância do pai, podemos perceber que, ao mesmo tempo que ele é uma figura que castra, inibe os esforços dos jogadores, ele é também o Deus, o protetor que no momento ruim acolhe o filho e nele deposita esperanças.

Portanto, podemos ver que essa imagem de pai que o treinador passa é extremamente contraditória, pois, ao mesmo tempo que adquire as qualidades de um pai verdadeiro, ele apresenta as qualidades de um padrasto, aquele padrasto mau que todos os filhos temem. E essa característica pode ser extremamente explosiva em um contexto de muitos jogadores com o mesmo objetivo: tornar-se um profissional bem -sucedido. Além de provocar insatisfação em alguns jogadores pelo simples fato de estarem sendo preteridos, fica a decepção da traição emocional.

Por isso, considerando todas essas proposições e relacionando-as sempre com o contexto do cotidiano no futebol/futsal, podemos apresentar algumas sugestões para a representação do treinador no sentido de amenizar quaisquer conflitos que possam acontecer nessa relação, tais como:

Ao se representar como pai, o treinador deve, desde o primeiro contato com os jogadores, fazer distinções entre o tratamento que dá aos jogadores e a forma como ele irá conduzir a formação e escalação da equipe, esclarecendo que todas as decisões serão tomadas em última instância por ele, treinador. Deixar claro que serão sempre escalados e preferidos aqueles que estiverem em melhor forma, torna-se extremamente importante para se manter a relação paterna agradável, fiel e justa.

O treinador, sempre que puder, deverá evitar relacionar o desempenho da equipe atribuindo sucesso ou fracasso a um único ou a uns poucos jogadores, considerando que todos os jogadores possam ter suas importância reconhecida, suprimindo do imaginário coletivo a idéia de heroicização épica ou trágica.

REFERÊNCIAS:

1. Orlandi, E. P. Discurso e leitura. Campinas: Cortez, 193.
2. Ferreira, R. Entre o sagrado e o profano: o lugar social do professor. Rio de Janeiro: Quartet, 2002.
3. Maffesolli, M. O imaginário é uma realidade. 2002
4. Ferreira, N. T. Esporte, jogo e imaginário social. Rio de Janeiro: Shape, 2003
5. Chevalier, J.; Gheerbrant, A. Dicionário de símbolos, 18 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2003.






















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